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Hormônios, insetos, vírus: entenda como os defensivos biológicos podem ser alternativas aos agrotóxicos


No Brasil, o uso de agrotóxicos biológicos vem crescendo, refletindo o aumento das autorizações do Ministério da Agricultura para colocar esses produtos no mercado.

Em 2020 e 2021, o governo autorizou, 95 e 92 defensivos do gênero, respectivamente — um volume bem maior que a média de autorizações em anos anteriores (veja abaixo).

O avanço está relacionado a uma maior pressão da sociedade contra o uso dos agrotóxicos, na visão do engenheiro agrônomo José Pedro Santiago, que é diretor do Instituto Brasil Orgânico.

“Essa condenação tem mudado o mercado. Tanto é que, hoje, grandes empresas produtoras de agrotóxicos estão entrando no ramo de biológicos”, acrescenta.

O controle de pragas por meio de defensivos biológicos sempre existiu, mas seu uso intermediado pela indústria é recente, tendo início entre os anos 2000 e 2010, explica Menten, da Esalq-USP.

Já os agrotóxicos chegaram às lavouras brasileiras na década de 1940, aponta o professor. Estes são diferentes dos biológicos por serem sintéticos, explica Andreza Martinez, diretora da Divisão de Defensivos Químicos da CropLife Brasil, associação que reúne os fabricantes do setor.

Por que biológico não é tóxico?

 

Diferentemente dos químicos, os biológicos agem apenas contra a praga que se deseja combater e não são tóxicos ao meio ambiente e às pessoas, explica Santiago, do Instituto Brasil Orgânico.

“Quando você aplica um agrotóxico, você acaba matando muito mais do que o inimigo natural. Mata outros predadores, minhocas, fungos, bactérias, nutrientes que fazem a planta crescer”, diz.

 

“A ação do biológico é diferente. Eu, por exemplo, estava com um problema de ataque de lagartas em uma plantação de abacate e comprei umas vespinhas, que colonizam a lagarta, colocam ovos em cima delas ou comem. Não é tóxico. Não faz mal para o solo, para os animais, para a gente”, acrescenta.

Ovinhos de vespas que Santiago usou para combater lagartas em sua plantação de abacate. — Foto: Arquivo pessoal

Biológico nas grandes lavouras

 

Apesar de usarem insetos, vírus e substâncias naturais, os produtos biológicos não são exclusivos da agricultura orgânica.

Eles são usados também nos plantios tradicionais, seja de forma exclusiva ou combinados com agrotóxicos, o que é mais comum, como apontou Menten, da Esalq.

O Ministério da Agricultura afirma que não tem dados da utilização de biológicos no total da área plantada no Brasil, mas, sim, por tipo de cultura. Os dados são:

  • Cana-de-açúcar: 45%;
  • Algodão: 28%;
  • Soja: 21%;
  • Milho: 10%.

 

Para decidir qual produto aplicar na lavoura, é preciso observar o problema. Se o dano for muito profundo, por exemplo, é necessário usar o químico, segundo Amália Borsari, diretora executiva de biológicos da CropLife Brasil.

Mas essa decisão é sempre do engenheiro agrônomo, que irá otimizar e racionalizar a aplicação.

Outra diferença é que os biológicos têm um tempo menor de vida na prateleira por serem organismos vivos, o que requer uma comercialização mais rápida. Por isso, um dos desafios da pesquisa desse setor é melhorar estes prazos, afirma Menten.

Biológico é mais barato para indústria

 

Enquanto o faturamento das empresas com a venda de agrotóxicos cresce a uma taxa de 1% a 3% por ano, o mercado dos biológicos se expande de 15% a 20%, em todo o mundo.

As estimativas são de um levantamento feito por Menten, com base em dados de associações e empresas de defensivos.

Já no Brasil, a tendência é de que o setor tenha um avanço anual de 35% entre 2020 e 2025, segundo o pesquisador.

“Isso porque a agricultura sempre está em busca da maior sustentabilidade e esses produtos têm algumas características de apresentarem menor toxicidade, portanto, são buscados por todos os agricultores, desde que sejam eficientes”, diz o professor da USP.

Larva de Chrysopidae predando pulgão. — Foto: Alessandra de Carvalho Silva

Uma outra razão para o crescimento é o preço, que é mais baixo. “Está sendo muito mais rápido produzir um novo defensivo biológico do que um químico e é um custo muito mais baixo para os fabricantes”, diz Menten.

Esse custo de produção é menor, pois não são necessários ingredientes ativos importados, como acontece com os químicos. “Ele depende de ter a linhagem, seja do micro-organismo, do inseto predador, parasitário… E, aí, você desenvolve mecanismos de sua multiplicação”, explica.

O setor também está em um momento de alto investimento em pesquisa, afirma Andreza, diretora da CropLife Brasil.

“As perspectivas são muito boas. Hoje, por exemplo, o mercado de biológicos, comparado com o químico, é em torno de 3% mais ou menos. Fala-se que, até 2050, nós vamos ter metade do mercado com químico e metade biológico”, especula Menten.

Já para o agricultor, nem sempre um biológico sai mais barato que um químico ou vice-versa. “Tudo isso vai depender da classe do produto – se é fungicida, inseticida–, da praga ou da cultura”, diz Menten.

Por outro lado, a variação de preço entre um e outro não é alta e o custo por hectare tratado acaba sendo muito similar, afirma Cristiane Tibola, CEO da Life Biological Control, startup que produz insumos biológicos.

No longo prazo, o uso dos biológicos, porém, reduz gastos e danos ao produtor e ao meio ambiente, aponta.

“Hoje, nós temos diversas pragas que são resistentes aos agrotóxicos, ou seja, quando você aplica o produto, ele já não funciona e o agricultor continua tendo prejuízos”, diz Cristiane.

 

“Então, estamos utilizando biológicos para controlar as pragas que os agrotóxicos não controlam mais”, acrescenta.

Produção de biológicos nas fazendas

 

Por outro lado, a fabricação própria pode reduzir custos, apesar de ter um investimento inicial alto.

O governo permite que os defensivos aprovados para a agricultura orgânica sejam fabricados nas fazendas, desde voltados, exclusivamente, para uso próprio. Esse sistema é conhecido pelo termo “on farm” e tem capacidade de diminuir gastos para o produtor.

 

“A redução de custos é uma das principais razões do “on farm”. O grande problema é a manutenção, que envolve desde a implantação de uma estrutura de alta qualidade até compra de cepas eficientes para que não haja contaminação”, diz Menten.

Hoje, segundo ele, a produção nas fazendas é mais viável para grandes agricultores, que conseguem arcar com os custos dos materiais e equipamentos.

Como é a autorização

 

Depósito de bactérias na coleção de microrganismos da Embrapa Agrobiologia. — Foto: Aline Macedo/Embrapa

Os produtos biológicos são potencializados pela indústria, ou seja, têm seus efeitos intensificados. Por este motivo, assim como os químicos, eles precisam passar por análises antes de serem vendidos para os agricultores.

Para evitar danos à saúde e ao meio ambiente, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais (Ibama) precisam autorizar a comercialização, bem como o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), explica Amália.

Os produtos fabricados nas fazendas estão, atualmente, isentos de registro e, segundo Menten, o sistema “on farm” ainda precisa de regulamentação.

“Por enquanto, ainda não existe uma orientação. Isso está sendo discutido na legislação atual. O que existe é um esforço muito grande de várias instituições para levar esse conhecimento para todos esses produtores que, eventualmente, queiram produzir”, afirma o professor da Esalq.

A Câmara dos Deputados aprovou em fevereiro, em regime de urgência, um texto que tramitava há 20 anos no Congresso e que revoga a lei dos agrotóxicos, de 1989.

O projeto, apelidado pelos críticos de “PL do Veneno”, seguiu para análise no Senado. Ele muda as regras de aprovação e comercialização de agrotóxicos e inclui a regulamentação do preparo dos defensivos biológicos pelo próprio agricultor.

Porém, este manejo em fazenda própria pode ser perigoso. Caso haja algum problema no processo de fabricação, como uso de equipamentos inadequados, o defensivo pode gerar contaminação e desenvolver doenças aos seres humanos, que seriam espalhadas pela plantação, diz Amália Borsari, diretora executiva de biológicos da CropLife Brasil.

Fonte: G1





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