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‘O melhor remédio para quem perdeu o emprego é outro emprego’, diz autor de ‘A economia desumana’


A epígrafe de “A economia desumana”, parceria do epidemiologista Sanjay Basu, da Universidade Harvard, com o economista político David Stuckler, da Universidade Bocconi, em Milão, é extraída da obra do médico e político alemão Rudolph Virchow. Em 1848, Virchow escreveu que a política nada mais é senão a medicina em grande escala. Em 2012, publicando seu livro no período que se seguiu à grande crise financeira deflagrada em 2007, a dupla se dedicou a expandir a fórmula de Virchow: a economia também pode ser vista como uma aplicação ampliada da medicina.

Isto significa que em casos como a proteção social, a legalidade do aborto, as relações de trabalho e, naturalmente, as medidas de controle de uma pandemia, decisões dos governos e dos mercados determinam não apenas a prosperidade ou a falência dos indivíduos, mas também seus riscos de contrair doenças ou perder a vida.

Em entrevista ao Valor, Stuckler afirma que um dos propósitos do livro, quando foi escrito, era argumentar em favor de programas como o New Deal, adotado por Franklin Roosevelt nos Estados Unidos na Grande Depressão dos anos 1930, como resposta a crises. Com base em estatísticas, os autores buscam mostrar que, tanto na crise financeira quanto na Grande Depressão, países ou regiões que adotaram uma austeridade rigorosa apresentaram dados de saúde muito piores que aqueles onde houve medidas de compensação. Os pesquisadores defendem a adoção de medidas ativas do mercado de trabalho, que protegem trabalhadores demitidos do risco de suicídio e da degradação da saúde mental.

O momento em que “A economia desumana” (trad. Maria Lúcia de Oliveira, ed. Best Business, 266 págs., R$ 69,90) está sendo lançado no Brasil tem semelhanças e diferenças importantes em relação a dez anos atrás. De um lado, o mundo também está saindo de uma crise profunda. De outro, a relação entre saúde e economia está mais estabelecida no imaginário coletivo.

“O que recomendamos há dez anos continua valendo hoje. Economistas do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial já voltam a exigir um caminho de austeridade profunda, como naquela época. Os efeitos disso, já sabemos quais são”, diz.

Trechos da entrevista:

Valor: Diferentemente da grande crise financeira, a recessão causada pela pandemia contou com ajudas diretas à população e estímulos à economia. Que efeitos essas medidas tiveram sobre a saúde?

David Stuckler: De fato, esses dois períodos tiveram respostas muito diferentes. A interrupção da economia pela covid levou a estímulos públicos bem maiores. Eles foram concentrados, sobretudo, na necessidade de manter as empresas de pé, evitando que quebrassem, e no apoio à capacidade de consumo. O problema é que já estamos vendo sinais claros de que, muito em breve, vamos entrar em um processo no qual diversos países começam a aplicar profundos pacotes de austeridade, porque dão de cara com grandes déficits e endividamento criados pela ajuda à economia. Com a alta da razão entre dívida e PIB, vamos ver experimentos com a “austeridade 2.0”. Especialmente porque alguns países estão entrando em recessão de novo. Essa parte da história, pelo menos, certamente rima com o que vimos da outra vez.

Valor: No livro, vocês recorrem à austeridade para explicar a piora nos dados de saúde em 2011.

Stuckler: É interessante observar que, naquele momento, muitos dos riscos para a saúde, o bem-estar e a vida eram conhecidos, mas plenamente aceitos. Lideranças políticas diziam abertamente: muito bem, haverá aumento dos suicídios, dos casos de depressão e outras doenças, e não há o que fazer, porque estamos em recessão. O que aprendemos examinando diversas crises na história é que, na verdade, os governos têm escolha, sim. O papel do poder público é crítico. Ao fazer suas escolhas, os governos podem ajudar a economia a voltar aos trilhos sem todo aquele custo colateral de sofrimento humano. Se erram, podem dobrar o sofrimento, intensificá-lo, criar uma verdadeira pandemia.

Valor: Vocês elogiam políticas que ajudaram as pessoas a continuar trabalhando durante a recessão. Como essas políticas se comparam aos pagamentos emergenciais adotados na pandemia em vários países?

Stuckler: As pesquisas com essa comparação ainda estão em curso. Mas adianto que a ideia de distribuir dinheiro é que quando alguém perde o emprego, o governo compensa a perda de renda. Mas essa compensação não atinge todos os efeitos negativos para a saúde mental, que envolve o propósito da vida, a rede de contatos e de comunidade. Os pagamentos ajudam muito, sobretudo com dívidas e outras dificuldades financeiras reconhecidamente tóxicas para a saúde mental. Mas só em parte. O melhor remédio para quem perdeu o emprego é outro emprego. Por isso, os melhores resultados vêm das políticas ativas do mercado de trabalho. É uma ferramenta para que as pessoas voltem a trabalhar logo.

Valor: Antes da pandemia, uma das propostas de política pública mais discutidas dizia respeito a transferências semelhantes: a renda básica universal. Como lhe parece essa proposta?

Stuckler: De maneira geral, uma estratégia de proteção social como essa é importante, por exemplo, para que os empreendedores possam correr riscos. O empreendedor corre o risco de fracassar, colocando em perigo seu acesso à saúde, a educação de seus filhos e assim por diante. Havendo proteção social, ele não vai à bancarrota completamente, está mais seguro para se arriscar. Somos favoráveis a esse nível de tomada de risco, porque beneficia a economia. Sou um grande fã desses benefícios, mas penso na proteção social como algo muito mais amplo do que a renda, que é só uma categoria dentro dela. É preciso pensar a sustentação de todo o curso da vida. É fácil para o setor público cair na falácia de que é só resolver a questão da renda. Ou seja, a renda básica é um componente vital de um sistema de proteção social, mas não é tudo. O ideal é uma proteção básica universal.

Valor: Nos Estados Unidos, a Suprema Corte acaba de reverter a decisão que tornava legal o aborto em todo o país. Que consequências podemos esperar em termos de saúde?

Stuckler: É cedo para dizer quais vão ser as consequências, mas dá para imaginar que vamos ver um aumento nos abortos arriscados e na mortalidade de mulheres. Esse é um caso que mostra como a política nada mais é senão a medicina em grande escala social. A Suprema Corte está brincando com a vida de literalmente milhões de pessoas. Os EUA, hoje, me deixam realmente preocupado, com suas guerras culturais e políticas que giram em torno de temas como esse. Não só o aborto, mas também as armas e outros. A maneira como meus colegas e eu pesquisamos essas coisas é pelos problemas econômicos amplos que subjazem a elas. Às vezes, as guerras são tão intensas que não deixam ver, por baixo delas, grandes decisões econômicas. Há questões estruturais, econômicas, que passam despercebidas.

Valor: No livro, vocês apontam que alguns dados vão no sentido oposto ao esperado: a saúde pode melhorar durante uma recessão. O que esses casos ensinam?

Stuckler: Se as economias colapsam e a saúde das pessoas melhora, isso nos diz algo perturbador sobre o tipo de capitalismo em que vivemos. É um sinal de que talvez tenhamos perdido de vista, coletivamente, o que é importante. Não digo que recomendo este ou aquele modelo de sociedade ou economia, mas claramente há sociedades que se organizam para investir mais pesado em proteção social, o célebre bem-estar do berço ao túmulo, e apresentam dados de saúde para a população em geral bem mais altos do que seria esperado para seu PIB. É uma escolha coletiva: investimos nossos recursos nas coisas que promovem a boa saúde, uma boa vida para as pessoas?

Valor: Outro fenômeno americano que vincula a saúde e a economia é a crise dos opioides, em que desempregados abusam de analgésicos, e que atinge sobretudo homens brancos de meia-idade. O que esse caso revela?

Stuckler: Há problemas do lado da oferta e da demanda. Um é o marketing pesado na promoção dos medicamentos. Consultorias e farmacêuticas agem diretamente sobre os médicos. De outro lado, as pessoas estão atravessando um grande sofrimento. Estão cronicamente estressadas, sempre com dores que não podem tratar. Têm dificuldades constantes. Os determinantes sociais da saúde estão em péssimas condições. Essa crise me lembra muito o Leste Europeu no começo dos anos 1990. Houve uma epidemia terrível, concentrada sobretudo em homens em idade de trabalhar, o que é incomum para as epidemias, que geralmente afetam pessoas mais velhas e grupos com o sistema imunológico mais fraco, como crianças. Foi uma epidemia dos tipos de morte que os epidemiologistas chamam de causas externas: suicídios, homicídios, mortes relacionadas às drogas, especialmente o álcool. Essas sociedades estavam passando por uma mudança social radical e acelerada. As pessoas estavam desorientadas, sem um senso de lugar ou propósito. Nas áreas pós-industriais dos EUA, onde a crise está muito concentrada, há muitas pessoas, especialmente homens, que estão nessa situação e recorrem a essas drogas, que lhes fazem mal.

Valor: É por isso que a economia de plataformas é associada a números ruins da saúde mental?

Stuckler: A precariedade é algo que chama nossa atenção. Os contratos de jornada flexível da Inglaterra, por exemplo [em que o empregador não precisa garantir nenhuma hora de trabalho]. A falta de segurança no trabalho. Tudo isso está quase 100% correlacionado com o aumento de risco de depressão. Fisiologicamente, identificamos pessoas com níveis altos de cortisol, por longos períodos. Os riscos de longo prazo de cardiopatias e câncer são muito maiores. Economistas pensam nisso como externalidades: a mão de obra sai mais barata para as empresas, mas a sociedade tem que lidar com contas mais altas de cuidados com a saúde e outros problemas.

Valor: Uma de suas pesquisas trata da associação entre a gripe espanhola e a ascensão do fascismo na Itália. Como é o vínculo entre epidemias e radicalização política?

Stuckler: Isso me perturba muito. Em situações como a atual, não é absurdo que um líder demagogo crie uma aliança com forças militares para tornar um país fascista. Pode acontecer mais rápido do que imaginamos, e é um resultado clássico em tempos de crise e emergências. Não quero ser alarmista, mas a pesquisa mostra que coisas assim aconteceram várias vezes. Mas o que aprendemos com essa pesquisa sobre a Itália, na verdade, é que a saúde é como o canário na mina. Ela sinaliza que algo se aproxima. Muitas vezes, concomitante à radicalização do eleitorado, aparece nos dados de saúde que as pessoas estão sofrendo excessivamente. Isso as torna mais predispostas ao canto da sereia da política radical, à direita ou à esquerda. Isso cria instabilidade. Nossas pesquisas examinam as consequências políticas do período pós-austeridade. Claramente as pandemias e o endividamento podem ser aproveitados de modos tóxicos por políticos radicais, que insuflam mensagens de ódio.

Valor: A pandemia mostrou também a necessidade de cooperação global em saúde, mas houve problemas: as disputas em torno da Organização Mundial da Saúde, a má distribuição de vacinas para países pobres. Como o sr. vê o futuro da governança global em saúde?

Stuckler: Hoje, temos a melhor OMS que o dinheiro pode comprar, ou seja, muito pouco. O orçamento operacional da OMS, para o mundo todo, é menor do que o de um grande complexo hospitalar nos EUA. Por isso, ela se tornou uma organização praticamente de consultoria, dependente de doadores. Acertar o orçamento é importante para que a OMS possa exercer seu papel na governança global da saúde, que deveria ser central. Mesmo nas melhores condições, essa coordenação é uma tarefa dificílima, claro. Governança global é um grande problema. Vale também para a proteção social. Historicamente, e no âmbito nacional, a ideia de bem-estar evoluiu de uma provisão privada, voluntarista, que passava por igrejas e instituições de ajuda, para sistemas estatais, financiados por impostos. Hoje, entre países, temos algo semelhante. Um sistema de caridade, de auxílio, informal, para ajudar os mais pobres. Já avançamos muito na integração das economias em escala global, mas os sistemas de proteção social e de saúde ainda são domésticos. Não temos uma estrutura de governança para permitir um mínimo de proteção social, um patamar aceitável de bem-estar no mundo. A primeira vez que algo assim foi tentado foi com o HIV, há mais de 20 anos. O mundo definiu que qualquer um no planeta com HIV teria acesso a antirretrovirais.

Valor: Deu certo?

Stuckler: É uma história longa. Hoje, eu diria que estamos em um ponto em que se busca ao menos garantir o acesso. É um compromisso enorme, que não temos para insulina, nem conseguimos chegar com as vacinas da covid. Outra coisa que aprendemos foi que os fundos criados para lidar com a pandemia têm um problema de infraestrutura. Somos capazes de investir na fabricação das vacinas, mas não conseguimos entregá-las às pessoas. Esse foi um obstáculo enorme. Muitos dos recursos não foram nem sequer absorvidos pelos países. É o caso dos fundos disponibilizados pelo Banco Mundial e pelo FMI.

Valor: A Grécia, que sofreu consequências terríveis da grande crise financeira, é objeto de um dos principais capítulos do livro. Uma década mais tarde, os indicadores ainda são ruins?

Stuckler: Dá para ver, tanto economicamente quanto na saúde e outras áreas, que as coisas ainda têm muito a melhorar para voltar ao estado anterior. Existem efeitos de longo prazo na saúde, e a Grécia teve uma década perdida. Recentemente, alguns programas que tinham sido cortados voltaram a receber financiamento. Houve decisões muito míopes, como cortes a programas contra mosquitos que transmitem malária ou de prevenção ao HIV. Mesmo com o retorno do investimento, não tem como trazer de volta as vidas perdidas.



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