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Discurso do Fed é incoerente, conflitante e não passa sinal correto, dizem economistas


O discurso do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) e de seu presidente, Jerome Powell, ao elevar a taxa básica de juros americana ontem, não passou o “sinal correto” e foi considerado incoerente e conflitante por economistas que participaram nesta quinta-feira do debate “E Agora, Brasil?”, realizado por “O Globo” e Valor.

O Fed elevou a taxa de juros americana em 0,75 ponto percentual, para o intervalo entre 2,25% e 2,50%, em uma tentativa de combater a escalada da inflação, que se encontra no patamar mais elevado em 40 anos. No comunicado da decisão, o Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc) reafirmou seu compromisso em reduzir a inflação à meta de 2% e disse que a taxa de desemprego permaneceu baixa, reforçando o sentimento de que novas altas serão necessárias, mas também avaliou que indicadores recentes de gastos e produção enfraqueceram.

Em entrevista após a decisão, Powell disse que uma redução do ritmo de altas provavelmente será necessária “em algum momento”, sem excluir a possibilidade de mais um incremento de 0,75 ponto em setembro, a depender dos dados econômicos, mas ele também reiterou que a meta é levar o juro para o terreno “levemente restritivo”, um patamar entre 3% e 3,5%, e indicou que a taxa já poderia estar no território neutro.

“Achei sinais meio conflitantes”, disse José Júlio Senna, chefe do Centro de Estudos Monetários do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre).

“É um pouco conflitante ele estar com esse discurso de que subiu o juro, quer chegar na meta, mas está com ‘medo’ de causar uma recessão”, concordou Paula Magalhães, economista-chefe da A.C. Pastore & Associados. Isso, segundo ela, acaba sendo contraproducente. “Você não gera um aperto de condições financeiras como talvez deveria, enquanto alivia expectativa de juro para o futuro”, apontou.

Para Magalhães, é difícil também a autoridade monetária americana se comprometer com esses níveis em meio a tantas incertezas, seja a respeito do comportamento das expectativas, seja sobre a taxa neutra de juros, que pode ter mudado se tiverem acontecido mudanças estruturais, por exemplo, no mercado de trabalho após a pandemia. “Fica complicado, não deveria ter esse tipo de discurso assim com tanta certeza de ter chegado à neutra.”

Para que uma taxa de 2,5% de juro nominal seja o neutro, é fundamental que a expectativa de inflação esteja na meta de 2%, disse Senna. “O problema é que hoje em dia não estamos ainda com as expectativas na meta de longo prazo do banco central”, afirmou.

Ele citou pesquisas como da Universidade de Michigan e do Fed de Nova York que indicam expectativa de inflação de mais de 5% ou quase 7%, respectivamente, para o próximo ano. Além disso, disse, o mercado precifica, na curva, inflação ao redor de 3,6% para daqui um ano e de 2,6%, no caso do número 12 meses à frente contado daqui um ano.

“O que o Fed está dizendo que está fazendo não representa o juro neutro ainda, não chega lá. O número previsto, 3,25%, é mais ou menos só a inflação esperada, não está no território neutro. Chamar isso de ‘neutro’ não acho nem um pouco correto”, disse Senna.

Trazer esse juro para território neutro até o fim do ano pode significar levar o juro a taxa básica de 4%, ou talvez até mais, segundo Senna. “Ainda tem um longo caminho pela frente”, afirmou.

Para que a inflação ceda nos EUA, o mercado de trabalho precisa ser desaquecido, lembrou Senna. Ainda que o Produto Interno Bruto (PIB) dos EUA tenha caído no segundo trimestre, de acordo com dados divulgados hoje, houve crescimento do consumo e das importações, observou Magalhães. “É preciso ver o que aconteceu com os investimentos para terem caído tanto, mas não muda o fato de que o mercado de trabalho ainda está muito aquecido, são quase duas vagas abertas por pessoa procurando emprego”, disse.

Isso implica um mercado de trabalho que exerce pressão salarial, o que vira inflação, explicou ela. “Apesar desse número ter saído mais fraco e de o Fed ter mostrado ontem preocupação com a atividade, isso não muda o fato de que ele vai ter de desacelerar a economia americana”, afirmou Magalhães.

Para Senna, parte da “saia justa”, isto é, do cuidado que o Fed tem para abordar a questão da desaceleração da economia, tem a ver com o fato de uma suposta independência excessiva dos bancos centrais ter passado ser contestada principalmente após a crise financeira de 2008/2009.

“Não vejo hoje o Powell em condições de chegar e dizer ‘olha, estamos planejando uma recessão sim’”, disse Senna. “Seguramente, ele pensa assim, mas ele não pode dizer isso, ele está amarrado, seria um ‘suicídio’ político. Isso limita muito a comunicação e atrapalha a formação de expectativas”, acrescentou.

Henrique Meirelles, ex-ministro da Fazenda e ex-presidente do Banco Central do Brasil, lembrou que o Fed tem um mandato duplo – ou seja, ele precisa controlar a inflação e garantir o máximo emprego -, o que poderia soar contraditório no curto prazo. A solução conciliatória foi interpretar que a forma de maximizar empregos no longo prazo é manter a inflação na meta.

“Um banco central independente tem de ser independente mesmo, para valer e para tomar medidas algumas vezes impopulares de curto prazo”, afirmou.

Com conteúdo VALOR PRO, o serviço de informação em tempo real do Valor Econômico



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