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Batalha do Fed contra espiral inflacionária divide gestores


O Federal Reserve (Fed, o banco central americano) já fez boa parte do trabalho de piorar as condições financeiras da economia e, a partir de meados de 2023, poderá inverter o ciclo, segundo Rogério Xavier, coordenador do comitê executivo e diretor responsável pela área de juros da SPX. Tal percepção ainda não é dominante entre gestores que participaram nesta quinta-feira da Expert XP 2022, mas seria um movimento potencialmente benéfico para as ações e o índice S&P 500.

“A gente já vê claramente uma desaceleração importante da economia global, nos Estados Unidos e no resto do mundo”, disse Xavier, listando dados de confiança do consumidor, preços de imóveis e do mercado de manufatura. “A política de retirada de estímulos, não só monetários, mas fiscais e creditícios, já está tendo esse efeito.”

Para o gestor, embora não seja possível saber o quão longe vai o Fed, se levará as taxas de juros referenciais a 3%, 3,5%, o passo seguinte é de redução. “Se a perspectiva de aperto não for tão alta como se esperava, isso pode levar o mercado a acreditar que a postura do Fed vai ser cortar os juros, não nos próximos seis meses, mas nos próximos 12 meses”, comentou.

Como são os juros de longo prazo que interferem na taxa de desconto usada para trazer o fluxo de caixa das empresas a valor presente e calcular preço justo das ações, esse novo parâmetro tenderia a valorizar os papéis.

“Quando se fala em índice [o S&P 500] tem muita coisa, mas quando se olha para algumas empresas que souberam lidar bem com a inflação e não vão passar por um ciclo tão longo de aperto, a visão é que o mercado acionário vai performar bem à frente”, disse Xavier. Nos próximos seis meses, porém, permanece a cautela. O que falta, a seu ver, são efeitos das restrições de liquidez no mercado de trabalho americano.

O momento de vender ações já passou e agora é hora de buscar aquilo que está barato, papéis cujos “valuations” estejam num nível não justificado pelo que podem entregar de resultados, disse Carlos Woelz, sócio-fundador da Kapitalo. No Brasil, isso se traduz em comprar companhias desalavancadas e com preços muito deprimidos.

Nos EUA, o gestor avaliou que o mercado de trabalho segue apertado e não há garantias sobre a velocidade da redução da inflação. Para Woelz, não basta haver queda do número de vagas, o desemprego teria também que aumentar. Sem esse tipo de resposta, pode ainda haver uma revisão de alta de juros no médio prazo.

“O S&P 500 está colocando no preço a expectativa de um pouso suave da economia americana, mas isso não vai resolver o problema da inflação, precisaria de um pouso mais duro”, afirmou. “Mas a desaceleração é clara.”

De acordo com Woelz, um freio na economia mundial sob níveis de juros relativamente baixos seria surpreendente e positivo para os ativos de risco. Mas esse não é um cenário que esteja fechado.

Ex-diretor de política monetária do Banco Central, Rodrigo Azevedo, sócio da Ibiuna, disse divergir da tese de que o BC americano esteja sendo bem sucedido no esforço de conter a inflação. “Eu acho que o trabalho do Fed está longe de ser feito e que os juros nos Estados Unidos vão ter que subir muito mais ainda. E, se subirem muito mais, não é bom para a bolsa americana.”

Já no Brasil, o Banco Central começou a aumentar a Selic antes e parece mais próximo de encerrar o ciclo. “A inflação já começou a virar no Brasil, a questão é se vai virar rápido ou devagar. Na hora que sair de 12%, será que vai para os 3%, que é a meta do BC, ou será que vai se estabilizar em 6%? Se estabilizar em torno de 6%, o juro que tem aí talvez não seja suficiente”, disse Azevedo. Na quarta-feira, o Copom elevou a Selic para 13,75% ao ano, totalizando um ajuste de 11,75 pontos percentuais desde janeiro de 2021.

Para Azevedo, o atual ciclo de política monetária no Brasil está mais próximo do fim, mas, até que as incertezas sejam dissipadas, as taxas tendem a permanecer altas por muito tempo. “O momento não é bom para estar lotado de posições de bolsa, mas está chegando essa hora.”

A Ibiuna, que vinha privilegiando posições pró-alta de juros no mundo inteiro, zerou esse tipo de exposição nos emergentes. “A gente está namorando, não casando ainda, com posições aplicadas [apostando em baixa] em taxas de juros.” No mundo desenvolvido, pela leitura de que há ainda um plano a ser cumprido, o posicionamento prevê novas elevações.

Para Mariana Dreux, gestora da Truxt Investimentos, a batalha inflacionária não está vencida e os investidores voltaram a acreditar que as pressões serão resolvidas naturalmente. Para a gestora, o Fed deve subir os juros bem mais do que os 100 pontos básicos projetados nas taxas futuras neste ano.

Thiago Mendez, sócio e gestor de renda fixa da Bahia Asset, foi na mesma linha. “Não quero apostar contra os bancos centrais, mas o mercado está atribuindo um custo baixo em termos de risco inflacionário. A luta não acabou e ainda vamos ver rodadas de dados de inflação altos e respostas de autoridades monetárias no mundo desenvolvido.”



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